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Domingo, 18 de Novembro de 2007

Carlos Fiolhais: "Sampaio mostrou o que é quando convocou eleições antecipadas"

É exigente e divertido; culto e acessível. Carlos Fiolhais, o mais conhecido e premiado físico português, tem 51 anos, e é actualmente director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Deu aulas nos Estados Unidos e andou pelo mundo, mas regressou à sua cidade, que considera "uma lição".

 

Apoiou Jorge Sampaio nas suas candidaturas à presidência da República. Que importância tem a política para um físico?

Um cientista é um cidadão como os outros, com os mesmos direitos e deveres. Sou independente, mas participo na vida política quando acho que devo. Apoiei Jorge Sampaio por ele ser um político sensato. Mostrou que o era quando convocou eleições antecipadas. 

José Sócrates é um choque tecnológico para o país?

Sócrates choca uns e outros não. Sobre o choque tecnológico: eu não me importava de ser “chocado”, mas receio que a electricidade fornecida não seja suficiente. Eu quero acreditar que Eça de Queirós não tinha razão quando disse que o país é um “porco adormecido” que nem com um grande choque eléctrico acordaria.  

Pode haver evolução da ciência numa conjuntura económica de cinto apertado?

 Não só pode como deve. Se queremos ser ricos temos de desenvolver a ciência e tecnologia. Hoje, mais do que nunca, a riqueza depende do conhecimento e da sua aplicação. O governo faz bem em não apertar o cinto à ciência.  

O que o fascinou em “Matrix”, segundo a qual o mundo resulta de um super-computador: a possibilidade do livre arbítrio individual ou o triunfo do determinismo científico que leva a máquina a escravizar o homem?

 O filme “Matrix” mostra uma realidade que é uma ilusão criada por um computador. Eu acho que a realidade nunca será uma ilusão! O real é e será real. E nós não temos de ter medo dos computadores: eles é que são os nossos escravos. São-no já hoje e vão sê-lo ainda mais. 

Nessa ficção, Mariano Gago seria Oracle, entidade a quem se recorre para predições e inspirações ou Morpheus, o visionário que anuncia a libertação?

 Mariano Gago não é um personagem de ficção. É bem real e ainda bem para nós... 

Alguma vez a Inteligência Artificial poderá ser tão totalizante como nessa fábula cinematográfica? 

 Não. Eu tenho mais medo da estupidez natural do que da inteligência artificial. 

O que lhe parecem as teorias do cientista alemão Konrad Zuse [construtor dos primeiros computadores eletromecânicos programáveis], que sugere que o universo é gerado nas entranhas de um computador?

A imagem do universo como um computador é uma metáfora interessante. As leis da física seriam o software e a matéria o hardware. Na era dos computadores, é natural que usemos essa imagem, mas não a podemos levar demasiado a sério. 

A “Nature” noticiou que cientistas americanos clonaram, pela primeira vez, embriões de primatas. É perigosa a possibilidade que se abre para a clonagem de embriões humanos?

A clonagem terapêutica é desejável e vai-se fazer para reparações no nosso corpo. Quem é que não gosta de viver mais? Quanto à clonagem reprodutiva é uma outra história... Apesar de não poder dar origem a um exército de indivíduos iguais, há que ter algumas cautelas. 

Conseguiria imaginar um Portugal constituído só por indivíduos clonados?

 Não, a minha imaginação não chega a tanto. Nem sequer consigo imaginar uma equipa do Porto só com Ricardos Quaresma. Convenhamos que seria um perigo para as outras equipas. Mas é um perigo absolutamente virtual. 

A sua capacidade de preenchimento de tempo, entre investigação, docência, gestão, autoria de 35 livros, centenas de conferências, etc. é admirável. Há segredos na física para a organização do tempo?

 Sim, a física ajuda. Tenho uma agenda no “palmtop” e na Internet. Os computadores e as redes são obra da física. Mas o verdadeiro segredo para fazer muita coisa é ter boas equipas a trabalhar connosco. 

E para a boa disposição que exibe sempre?

 Sempre? (risos) 

O que poderia ser terrível que a física descobrisse? Ou daí só podem advir vantagens?

 O saber é um bem em si mesmo. Saber é sempre melhor do que não saber. Saber mais é sempre melhor do que saber menos.  Coisa diferente é a aplicação do saber. Mas estou em crer que se soubermos mais estaremos em melhores condições para aplicar melhor esse saber. 

O que é que o apaixona que escapa à matemática e à física?

Uma obra de arte por exemplo.  Vou a Madrid um destes dias para ver a exposição da Paula Rego e o Museu do Prado. A “Mulher Cão” de Rego ou “Las Meninas” de Velasquez valem bem uma viagem. 

É isso que considera lazer ou tem outros entretenimentos que não metam partículas?

Sim, viajar e regalar a vista com arte são actividades de lazer, mas lazer para mim rima com ler, confesso que sou viciado em leitura. Descanso de ler a ler. 

É verdade que às suas aulas os alunos levam amigos, namorados, primos e tios? Qual é o segredo dessa popularidade?

 Tios não é verdade. Sim, já dei aulas de física a muita gente. O segredo é que a física é divertida. Infelizmente agora há poucos alunos. Dirijo-me aos mais novos: venham para física porque vão gostar! Exige esforço, mas vão ver que compensa. 

Defende menos aulas nas escolas e mais tempo livre para experiências e iniciativas dos alunos? É, portanto, contra as aulas de substituição? E o que diz da impunidade das faltas?

As aulas de substituição não são um verdadeiro problema. Problema sim é a falta de reconhecimento e de estímulos aos professores. E problema sim é uma certa “nomenklatura” ministerial e o “eduquês” que fala. Quanto às faltas, sou pela tolerância zero. E só a um secretário de estado com um currículo de faltas poderia lembrar que houvesse faltas impunes. 

Acha que a escola é o reflexo da sociedade que temos? Ou será o contrário?

 Sociedade e escola estão entrelaçadas. A escola é o meio que a sociedade inventou para assegurar o seu futuro. Claro que a escola é feita pela sociedade de uma época para transmitir os conhecimentos e valores do passado. Mas com uma boa escola podemos esperar um futuro melhor. Como muito boa gente sofro com o estado da educação nacional: a falta de uma boa escola pode custar-nos o futuro.

Como é que um físico, distinguido com alguns dos mais importantes galardões da Ciência, encarou o Globo de Ouro de 2005?

 Nunca me passou pela cabeça receber o Globo de Ouro da SIC. Mas na altura  aceitei-o não só em meu nome mas também em nome dos cientistas portugueses que cada vez são mais e cada vez estão mais activos. Portugal tem cientistas, a maior parte deles jovens, e pode contar com eles. Os prémios de ciência significam que Portugal está a mudar. 

Como vê a viagem que levará algumas pessoas, incluindo eventualmente um português, à Lua?

Eu aposto mais na ida a Marte. Como disse o escritor de ficção científica Ray Bradbury: os marcianos existem, somos nós. Temos é de lá ir... Por que é que não há-se ir também um português? 

 

E a si, o que o prende a Coimbra?

Coimbra é uma lição. Para mim mais de sonho do que de tradição. Só para dar um exemplo concreto: tenho à minha guarda a rica Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e o meu sonho é, com as modernas tecnologias, digitalizar todo o seu conteúdo pondo-o na Internet ao alcance de todos. A “Casa do Conhecimento” podia ser em nossas casas.  
 
 
 
 

 


publicado por JN às 03:32

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