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Segunda-feira, 16 de Julho de 2007

José Miguel Júdice: "Num país de vidrinhos fui vítima dos vidrecos"

Helena Teixeira da Silva

Chega a Serralves como turista, a passear as rodinhas da mala, a distribuir cumprimentos aos amigos do Porto. José Miguel Júdice, 61 anos, mandatário da candidatura de António Costa a Lisboa, é um caso sério de humor refinado. Entra na entrevista como num jogo. Responde em sete minutos e 13 segundos, voluntariamente desarmado. Ontem, por telefone, reagiu às eleições intercalares.


É detentor da marca Inês de Castro. Como se adquirem os direitos de um facto histórico? Com alguma argúcia, algum conhecimento jurídico e com a boa vontade de a por ao serviço da colectividade.

 

No México, há uma espécie de competição entre as famílias de Diego Rivera e Frida Khalo para ver quem consegue colocar o nome dos respectivos familiares em mais produtos. E se os empresários desatarem a digladiar-se pela comercialização da História?

Por isso é que tive o cuidado de evitar que se estrague essa história fantástica! Todas as receitas que algum dia haja - e não houve até agora nenhuma - serão para a Fundação Inês de Castro, para perpetuar a imagem. Mas acho importante que os empresários descubram factos históricos; é uma forma de os divulgar e tornar mais conhecidos.

 

Não é esquisito vender o amor de Pedro e Inês numa lata de atum, como sugeriu?

Imagine o que será receber no dia de pedido de casamento uma lata de atum? É atum com amor. Pode ser pós-moderno, muito interessante e original.

 

Gostava mesmo de vender a história de Pedro e Inês a Hollywood?

Gostava, com certeza. Romeu e Julieta não resultou? E tem alguma dúvida de que a história de Romeu e Julieta é uma porcaria comparada com a de Pedro e Inês?

 

Terá que ser Joe Berardo a dar o empurrão?

Espero que não.

 

O seu processo disciplinar também dava um filme?

Ai dava, dava. Um filme de terror. Ou também podia dar uma comédia, uma tragédia, um filme para fazer chorar. E podia dar um filme que envergonhasse alguns dos actores.

 

Onde é que levava o bastonário dos advogados a banhos?

Não conheço.

 

O que fez ao colar da Ordem?

Nem sei, mas é uma coisa que deixou de me interessar há mais ou menos um ano.

 

E o retrato de que não autoriza exposição, vai buscá-lo?

Nunca chegou a ser feito, graças a Deus. Poupou-se dinheiro e poupou-se, provavelmente, uma obra de arte imortal. Na imaginação fica ainda mais bonito do que se fosse real.

 

Vai aproveitar as férias para apanhar sol na frente ribeirinha?

Não. Aí sinto-me um ginecologista. Trabalho onde espero que muitos se divirtam.

 

Incomoda-o passar por tachista?

Vindo de quem vem, com certeza que não me incomoda.

 

É possível colocar Lisboa nos eixos sem uma maioria absoluta?

Claro que é. Como foi possível ao professor Cavaco Silva fazer o seu programa em 85 e obter depois uma maioria em 87.

 

A percentagem de abstenção é desoladora?

Não. Há uma grande crispação contra os partidos, em Lisboa. E as eleições foram realizadas no pior dia: há pessoas a irem de férias e outras que ainda não regressaram. E há um cansaço grande em relação a eleições para dois anos. No entanto, uma abstenção na ordem dos 60% é um bocadinho, mas não é muito comparativamente aos 50% registados há dois anos.

 

Cabe ao PSD a maior lição a tirar destas eleições?

A grande lição é que vamos ter, finalmente, uma liderança e um programa sério para Lisboa.

 

Como justifica que o PS pareça estar a seduzir tantos elementos de outros partidos?

E mesmo independentes. Ainda está muito longe do que pode fazer. A política, hoje em dia, faz-se com base em objectivos que motivem as pessoas. É isso que, inteligentemente, Sarkosy está a fazer em França. Espero que Sócrates copie. Há muita gente com qualidade, que pode ajudar o país, se lhe for pedido.

 

Gosta mesmo de José Sócrates?

Gostar, gostar, gosto de pouca gente e preciso de os conhecer muito bem. Mas não tenho dúvidas nenhumas de que Sócrates está a ter coragem para fazer muitas coisas que outros que anunciaram e não fizeram.

 

Dê lá um parecer jurídico sobre o financiamento partidário.

Gostava que o financiamento fosse cada vez mais bem controlado. O que Saldanha Sanches está a fazer na candidatura do António Costa é exemplar. Pode ser publicado e copiado.

 

Parecer jurídico sobre a bufaria na função pública.

Os portugueses são uns vidrinhos. Eu fui vítima dos vidrecos. Portanto, estou sempre do lado daqueles que têm processos disciplinares por razões que têm a ver com a forma como falam ou deixam de falar.

 

Desfiliou-se do PSD, saiu da Ordem, é um homem de rupturas?

Sou, também. Mas também sou um homem de continuidades.

 

Depois da reforma, imagina-se a fazer o quê?

A escrever livros, a passear, a conhecer sítios que não conheço para levar para o outro mundo imagens bonitas que me entretenham. Imagino que no céu não há paisagens nem monumentos como aqui.

 

Não é muito cedo para falar do outro mundo?

Não sei. A morte pode chegar a qualquer momento sem me consultar.

 

Dos sete pecados capitais, a gula é o seu eleito?

É aquele que eu confesso com mais facilidade em público.

 

Janta sempre no seu restaurante, quando está no Porto?

Não. Aliás, hoje em dia, já não é o meu restaurante [Kool, na Casa da Música], já não estamos ligados ao projecto. Mas sempre que venho ao Porto janto em sítios agradabilíssimos e como sempre muito bem.

 

Vinicius de Morais diz que as mulheres para serem bonitas…

 …têm que ter alguma coisa que nasce da tristeza de ser mulher e viver só com o seu bem.

 

Isso. É assim?

Acho que sim. Falando, por uma vez, com seriedade absoluta, a minha mãe enviuvou muito cedo e o meu pai morreu quando eu tinha três anos. A imagem da mulher que eu tinha em pequeno era da mulher triste e o desejo que ela deixasse de o ser. Isso marca-nos para o resto da vida.


publicado por JN às 01:51

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