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Domingo, 6 de Janeiro de 2008

António Pedro Vasconcelos: "Espero que se entre numa era de desobediência civil"

 

Sendo cineasta, prefere assumir-se como comentador de futebol. Razão simples, não totalmente desprovida de ironia: vive mais do futebol que do cinema. António Pedro Vasconcelos, 68 anos, é, dizem, o realizador português mais americano. Ele aceita o que considera um elogio, mas vê-se sobretudo como intelectual.

Lançou Ana Zanatti como símbolo sexual em 1984 com o filme "O lugar do morto". Agora, recrutou Soraia Chaves para o "Call girl". Em linguagem futebolística, diria de si que é um bom olheiro de sex-symbols?  

Gostaria que reconhecessem que sou um bom “olheiro” para actores (de há uns anos para cá, com a ajuda da minha filha Patrícia, que faz o casting dos meus filmes). Em “O Lugar do Morto” e em “Call Girl”, era necessário descobrir duas actrizes que pudessem fazer papéis de “mulher fatal”. Acho que, num caso como no outro, escolhi bem. Infelizmente, em Portugal, não é muito comum este tipo de filmes. Talvez por isso, a Ana Zanatti não continuou no cinema. E espero que a Soraia tente outras paragens para não lhe acontecer o mesmo.

Quis que ela, a Soraia Chaves, fosse a versão portuguesa de Julia Roberts no Pretty Woman? Ambas têm curiosamente o mesmo nome: Vickie...

Nem pensei nisso. O “Pretty Woman” era uma comédia romântica sobre o tema da “Gata Borralheira”. O meu filme é mais duro, mais implacável e tem uma “moral” menos adocicada. Mesmo se trata um tema delicado – a corrupção política – com alguma ironia e as fraquezas dos personagens com alguma bonomia. A haver alguma homenagem era mais depressa à Vickie, a actriz do primeiro filme do Joaquim Leitão, “Uma vez por todas” (que se vê em fundo, a passar na TV, numa cena), que morreu precocemente e que era de uma beleza perturbante.

Num filme onde não existe pudor em recorrer ao vernáculo ou à nudez, por que razão optou por sugerir apenas a masturbação de Vickie? 

Nos meus filmes, não existe pudor nem impudor. O que se mostra e o que se ouve é o que é rigorosamente necessário. Nem mais nem menos. A cena da masturbação (e tudo o que a precede) era importante para se perceber que o autarca (Meireles) se deixasse apanhar, ingenuamente, naquela rede. A cena mais erótica, para mim, é a que precede a cena do Hotel, quando Vickie fica sozinha à mesa com Meireles. Aí é que ela “sugere” tudo o que se vai passar.

Lida de forma pacífica com o facto de Soraia Chaves garantir bilheteira, mas poder ofuscar o trabalho de autor? 

No “Jaime” não havia Soraia Chaves nem nenhum enquadramento erótico. E foi visto por imensa gente. O erotismo aqui era essencial á história e a Soraia foi extraordinária a dar vida ao personagem da Maria/Vickie. Sempre achei que são os actores quem leva o público ao cinema - como levava ao teatro e à ópera. E é bom que assim seja. O trabalho do realizador não deve ser perceptível. Só, mais tarde, os críticos e os exegetas devem avaliá-lo e analisá-lo. A tentação dos realizadores de dar nas vistas matou o cinema europeu. 

Alguma opção do produtor, Tino Navarro, o poderia levar a não assinar o filme? 

Se ele não correspondesse ao meu trabalho, sim. Mas com o Tino Navarro era impossível isso acontecer. Respeitamos o trabalho um do outro e não fazemos nada sem consenso. È esse o segredo.

Em 2007 estrearam dois filmes portugueses manifestamente debruçados sobre corrupção nacional. Diria que a sociedade portuguesa está hoje mais próxima da tríade Corrupção-Sexo-Poder do que de Deus-Pátria-Família?  

Acho que sim. Mas não vejo isso com moralismo. Não sou nostálgico da primeira tríade, como V. lhe chama, nem diabolizo o poder do sexo e do dinheiro ao ponto de achar que toda a gente se corrompe. Ou de que há hoje mais corrupção do que antigamente. O que há é mais cinismo, mas também há menos hipocrisia. Deixou de haver travões morais, sociais, legais ou religiosos á liberdade sexual. E o dinheiro tem tendência em comprar tudo – até as consciências. Um esclarecimento. O meu filme não é sobre corrupção. Nunca faria um filme a partir do testemunho da senhora D. Carolina Salgado!

Não vou pedir-lhe nomes, mas há autarcas portugueses que facilmente poderiam rever-se em Meireles? Inspirou-se em algum deles para construir a personagem? 

Não. Rigorosamente em nenhum. Há de tudo, como em todas a actividades e profissões. Autarcas sérios, dedicados, impolutos. Autarcas corruptos, incompetentes e venais. Ou simplesmente humanos: isto é, susceptíveis de “cair em tentação”, como o Meireles.

E para o ministro da Saúde [Virgílio Castelo] inspirou-se em Nuno Morais Sarmento? 

De todo. A concepção da cena e do personagem é minha e do Tiago. Mas a ideia de trocar os erres pelos guês foi do Virgílio, e eu comprei na hora. O que era importante era “fazer um bom boneco”, como se diz na gíria. Quando um personagem tem uma aparição muito curta, é bom caracterizá-lo bem e arranjar um bom actor para fazer o papel. Foi o que aconteceu. A ideia central da cena era não deixar o Meireles falar. Acho que resultou.

Mas não será uma coincidência o facto de "Call Girl" parecer retratar o caso Portucale e respectivo abate de sobreiros em Benavente, ou é? 

Digamos que o caso Portucale me deu a ideia dos sobreiros. Mas a coincidência fica por aí. Não investiguei o caso, nem tenho opinião formada sobre ele. O que me pareceu interessante foi o confronto entre duas visões – tradição e desenvolvimento – e a enorme promiscuidade, que toda a gente sabe existir, entre o poder económico e o poder político. Mas há políticos sérios, como há autarcas impolutos.

"Um filme numa lata é como a Bela Adormecida à espera de um beijo", disse. O beijo da crítica foi bom, de rara unanimidade. Como foi o do público? 

Não foi unânime e ainda bem. Sinceramente, a opinião que me interessa é a do público que paga o bilhete. A crítica é importante quando se trata de ajudar a descobrir um filme ou um autor. E quando cria laços de confiança com o leitor, ajudando-o a orientar-se a escolher os filmes que vai ver. Hoje, sobretudo na Europa, a maioria dos críticos perdeu esse papel de bússola. Talvez porque a maioria dos realizadores europeus também perderam o seu papel de “faróis”, de que falava o Baudelaire.

 "O mais americano dos realizadores portugueses" é um rótulo que lhe assenta bem? 

Tomo-o por um elogio. Desde a “geração do Vietname” que o cinema americano recuperou a liderança mundial e voltaram a ser os filmes americanos que preenchem os sonhos das novas gerações. Em termos de cinema, a Europa cometeu hara-kiri, como há anos venho denunciando. Quando percebi os caminhos que o cinema europeu, que dava cartas nos anos 60, decidiu tomar, tornei-me um dissidente. Mas muitas das minhas referências continuam a ser europeias: Rosselini (pela preocupação com o mundo á nossa volta), Renoir (pela relação com os actores e o respeito pelo público), são cineastas, entre outros, que me marcaram para sempre.

 

Hoje já saberia que profissão colocar nos Censos? 

Sou comentador de futebol e professor. Até que as coisas mudem (mas não vejo hipótese de haver uma indústria de cinema em Portugal – há muitos interesses que a isso se opõem), vou continuar a viver mais do futebol do que do cinema. Não é por acaso que temos mais vedetas no futebol do que no cinema.

Ainda é o cinema que o salva da loucura? 

Hoje acho que já estou imune a esse risco. Digamos que o cinema (sobretudo o cinema que vi), de facto, me salvou. Da loucura, da solidão, da amargura, do desespero. Mas se o meu equilíbrio tivesse dependido dos filmes que faço, tinha-me tornado um ser desesperado. Felizmente não cultivo o gosto bem português pelo queixume, e consegui arranjar outros meios de me ocupar, que me asseguraram algum equilíbrio mental e financeiro.

Inveja Manoel de Oliveira que, como disse, consegue viver só do cinema, fazendo-se pagar principescamente por isso? 

Acho patética a carreira do Manuel de Oliveira de há uns anos para cá. E acho obscenos os valores que ele se faz pagar pelos filmes que faz. Mas parece que ele e o país vivem bem com isso. Não tenho inveja de nada nem de ninguém. Tenho admiração por muita gente. E os que admiro não invejo. Não admiro (e muito menos invejo) aquilo em que Oliveira se tornou. 

Sendo amigo de Vasco Pulido Valente há tantos anos, tomou o partido dele na recente batalha com Miguel Sousa Tavares? Ou não se mete em guerras alheias? 

Meto-me nas guerras em que entendo que me devo meter. Sou amigo dos dois, admiro os dois. Acho que são das poucas vozes que, em Portugal, são independentes, que pensam pela própria cabeça. E são dos poucos que não cederam á chantagem imunda do lobby anti-tabagista! Honra lhes seja. 

Qual dos livros já leu: "Vai p'ró maneta" ou "Rio das Flores"? 

Estou a ler o primeiro. Vou ler o do Miguel. Gosto de tudo o que o Vasco escreve. Gostei bastante do “Equador” e tenho pena de não ter feito um filme. Mas o Miguel preferiu a televisão. Ele lá sabe.

E de Maria Filomena Mónica continua amigo ou ela também o embaraçou com a biografia "Bilhete de Identidade"? 

Há amigos que são para a vida. Ela e o Vasco são dois deles. A amizade implica admiração. E eu preciso de admirar alguém, como eles, que em Portugal, representam a inteligência crítica, o cosmopolitismo, a independência, a lucidez e até alguma ironia, sem a qual vivíamos mergulhados num mundo de trevas, inveja e mediocridade - sem hipótese de redenção.

Continua a tratá-la por "minha valquíria"? 

Como as valquírias, a Mena deu-me sempre muito alento naquilo em que me meti e naquilo que fiz. Ainda dá.

 

Revê-se no que ela designa como "autistas de esquerda"?

Continuo ser de esquerda e espero não mudar. Mas acho que há hoje um lobby cultural de esquerda (em Portugal, o Público é o espelho disso), que paralisou qualquer reflexão sobre o papel dos artistas e das artes no mundo actual e que se auto-sustenta em opiniões críticas que oscilam entre o terrorismo e a auto-suficiência e que, se calhar, ficarão para o lixo da História. No campo do cinema, por exemplo, esse autismo é muitas vezes patético.

Ela escreveu ainda que o António Pedro apesar de, na altura, não ter muito dinheiro, não prescindia dos luxos. Hoje, com José Sócrates, esse espírito opulento ainda seria possível? De que luxos não abdica?  

Nunca cultivei a opulência. Detesto o exibicionismo. Não tenho luxos. Tenho horror à dependência, seja por que forma for. E o luxo exige muito dinheiro e o dinheiro cria dependência. Mas sou exigente nos gostos, isso sim: desde a mesa aos amigos. O que não implica necessariamente opulência, extravagância ou exibicionismo.

Era o mais intelectual do grupo: na forma de ser, estar, falar, vestir, pensar. Vê-se como um intelectual ou a designação perdeu importância? 

Gosto da ideia e da designação. O intelectual é alguém cuja opinião, pela sua rebeldia, autoridade e independência dos poderes e dos interesses, influenciam a sociedade. Nesse sentido, tento ser fiel a essa responsabilidade. Mas, mais uma vez, é a opinião (lisonjeira) da Mena. 

Tinha fama, nos anos 60, de ser um homem extremamente bonito, "cintilante". Era um sedutor? Que expressão usaria agora para substituir o que então se designava como "amitiés amoureueses"?  

Como calcula, não me cabe julgar. Quanto à expressão, acho que continua ajustada. Mas, nalguns casos, pode chamar-lhes “afinidades electivas”, que é um termo que o Goethe inventou quando começou a “ter idade para ter juízo”.

O que fez aos poemas que escreveu? Guarda-os para eventual publicação ou nunca ousará mostrá-los? 

Não faço a menor ideia se existem. Sou completamente desprendido - de tudo. Não guardo nada. Os meus filhos, felizmente, “roubam-me” muita coisa que depois guardam. Mas nessa altura ainda não tinham nascido. Acho que não se perdeu nada.

Já descobriu por que razão as mulheres não gostam que os homens gostem de futebol ou Scolari mostrou-lhe que estava enganado? 

O Scolari não me mostrou coisa nenhuma. E muito menos que estava enganado sobre o que quer que seja. Mas as mulheres que vão ver os jogos da selecção não gostam de futebol. Gostam do Figo e do Ronaldo. E gostam da festa. Mas o futebol é guerreiro, agressivo, conflituoso. É disso que as mulheres não gostam.

Incomoda-o mais a nova lei do tabaco ou a sucessão de restrições impostas pela ASAE? 

Incomoda-me a ASAE, e o que ela representa. Ainda por cima ficou agora também com o controlo dos fumadores prevaricadores. É uma lei sinistra, um precedente perigoso, um atentado às liberdades, uma porta aberta à intolerância, um incentivo aos denunciantes, um triste sinal dos tempos, que ajuda a perceber a indiferença dos cidadãos à União Europeia e a decadência da Europa. Espero que as consciências despertem e que se entre numa era de “desobediência civil”. E que sobretudo os “não fumadores” ajudem a boicotar os restaurantes e bares onde não se fuma. (Declaração de interesses: não sou fumador e muito menos viciado. Gosto de fumar um charuto depois de uma boa refeição, quando estou com amigos e há tempo para ficar à conversa. Só isso.)


publicado por JN às 02:02

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