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Domingo, 22 de Julho de 2007

Filipe La Féria: "O protesto na estreia do musical foi extraordinário"

Helena Teixeira da Silva

Fair play. Será esta a expressão que melhor define Filipe La Féria, que fala despudoradamente sobre quase tudo. O empresário respondeu  em 24 minutos à entrevista, no Rivoli, polémica casa que poderá ser dele nos próximos quatro anos. Ou não. A conversa prolongou-se, em off, com o encenador no lugar de entrevistador.

A sua entrada no Rivoli dava um musical?

Dava um musical muito interessante. Seria uma comédia, porque a vida tem essa coisa extraordinária: é trágica na sua essência, mas é cómica porque é efémera. Nada vale nada. O que é muito importante hoje, amanhã deixa de ser.

 

Quem faria de Rui Rio?

Não sei quem faria a figura do Rui Rio. É um actor muito sui generis. Mas talvez o Ruy de Carvalho.

 

Quem faria de Filipe La Féria?

Isso já se fez muitas vezes. No “Passa por mim no Rossio”. Mas a pessoa que me imita melhor é o José Raposo. É extraordinário. É, de facto, um dos maiores actores, senão o maior da geração dele. É genial. Ele imita-me de uma maneira tão engraçada, que iludia as pessoas nos corredores; as pessoas pensavam que era eu.

 

Sentiu-se beliscado pelo protesto que houve na estreia de “Jesus Cristo”, no Rivoli?

Não, achei extraordinário. Gosto muito de protestos. Eu e o Mário Viegas, uma vez, levamos a maior sova das nossas vidas por termos subido ao palco na primeira revista reaccionária que se fez em Lisboa. Ainda bem que há protestos; é porque vivemos em democracia. Todas as pessoas devem expôr as suas razões. Nada me belisca, porque acredito em mim; sei o que valho. A minha família deixou de me falar por eu querer cumprir o meu sonho. Se aguentei isso, porque não haveria de aguentar o resto?

 

O musical custou 2,5 milhões de euros. Tem noção de que é a verba anual de alguns Teatros em Portugal?

Os teatros subsidiados também têm que fazer dinheiro. 2,5 milhões é pouco. A “Música no Coração”, ao fim de dez meses, ultrapassou dez vezes o que gastei. Tem que haver risco e um lado material para os negócios andarem. O Teatro Nacional de Londres tem várias produções: mais intimistas para um público mais restrito, mas também tem os grandes musicais: “Os miseráveis”; o “Cats”. Shakespeare também tinha que pagar aos actores e não era a Isabel I que lhe dava o dinheiro.

 

Qual é o cachet médio dos seus actores?

Cerca de 200 contos mensais. E, na minha companhia, pagos a tempo e horas. É Um bocadinho mais do que num Teatro Nacional, porque também trabalham mais, sete sessões por semana.

 

Na blogosfera pergunta-se muito quem é a dona Ermelinda de “Todos ao palco”. Quem é?

É uma grande amiga; uma mulher que gosta muito de teatro, uma pessoa que me acompanhou sempre, quase da familia, e que foi bilheteira na Casa da Comédia. É a principal responsável pela sociedade.

 

 

Quem é o seu principal concorrente em Portugal?

Não há, infelizmente. Devia haver mais empresários a arriscar. O teatro não devia ser tão dependente de um Estado miserabilista e financeiramente paupérrimo. Mesmo os hospitais, em Portugal, parecem uma guerra. Há problemas tão graves neste país que defendo que o Estado deve incentivar as criações artísticas, mas não na totalidade. A minha geração foi de risco. Muitos ficaram pelo caminho. Mário Viegas, António Cruz ou a Teresa Roby, uma actriz que começou comigo e que tem muito a ver com a história da minha vida. Morreu aqui, no Porto, há quase três anos. Foi uma geração que viveu sempre sobre o fogo. Atravessámos um período extraordinário da História de Portugal, da ditadura para a democracia. Vivíamos num quarto escuro e depois abriram-se as janelas para o mar até muitos sufocarem. Foi uma vida perigosamente vivida.

 

Portugal é um país de invejosos?

É um país pequeno, é como viver numa aldeia. Na aldeia, as pessoas conhecem-se: nos momentos difíceis talvez haja grande solidariedade, mas há, também, esses sentimentos mesquinhos. E não podemos esquecer-nos que somos muito fechados. Lembro-me de ter ido a Paris, pela primeira vez, quando tinha 16 anos. Achei que ia para outro planeta. Era uma diferença muito grande. Nós vivíamos na aldeia salazarista, pequena, fechada. Não se faz uma revolução de um dia para o outro. A cabeça das pessoas ainda vive nesses quartos escuros.

 

Vê teatro nas férias?

Só vejo. As minhas férias são passadas em Nova Iorque (onde, neste momento, está a minha filha a estudar) ou em Londres, os grandes centros de teatro. É o que eu gosto. O segredo da vida é fazer aquilo de que gostamos. O mundo é um sítio muito frágil para vivermos. E difícil. Só vale mesmo a pena se fizermos o que gostamos. Não sou contemplativo para ir para a praia, aborrece-me.

 

Já foi ao teatro no Porto?

Não, mas gostava de ir ver “As noites de iguana”. É feito por uma grande amiga, a mulher mais bonita que houve no teatro. A Estrela Novais parecia uma fada quando aparecia no palco. E, depois, adoro Tenesse Williams, que é o autor que mais me influenciou. O meu maior desejo era fazer “Um eléctrico chamado desejo”.

 

O Porto representa uma oportunidade real de mercado ou o desejo de trabalhar com outras pessoas?

As duas coisas. Tudo é bipolar na vida. Aqui há pessoas com muita vontade de fazer coisas. Os actores chegam antes da hora ao Rivoli, gostam do que estão a fazer e isso entusiasma-me, claro.

 

Trocaria Lisboa pelo Porto?

Sou um cidadão do mundo. Estiva no Alentejo, nos últimos dias, e tive saudades do Porto, porque a cidade tem uma coisa diferente de Lisboa. As pessoas são muito afáveis. Conto-lhe uma coisa comovente: eu entro no táxi e não pago; no hotel, nos restaurantes, almoço e janto e não pago. As pessoas não me deixam pagar. Os meios pequenos têm essa vantagem. Em Nova Iorque, se cair para o chão passam-lhe por cima.

 

O que faz no Porto quando não está a trabalhar?

Nada. A minha vida é do hotel para o Rivoli. E o contrário.

 

Como é tratado em Serpa?

Não é Serpa; é aldeia de Vila Nova de S. Bento. Eu sou ainda mais aldeão. As pessoas são maravilhosas, fizeram-me uma homenagem na casa onde nasci, que me comoveu muito. Está lá: "Aqui nasceu Filipe La Féria".

 

É o orgulho da terra?

 Não sei se sou o orgulho da terra, mas a terra é o meu orgulho.

 

Vai lá muitas vezes?

Às vezes. Tenho lá um monte, próximo de Barrancos. É sempre um encontro com o passado, com as pessoas que morreram, com os meus pais, com a minha família. Tem esse lado nostálgico, e a nostalgia é sempre dolorosa. Há sempre um tempo que, irremediavelmente, não volta e do qual nos despedimos. Muitas vezes, em sonho, ainda revejo aquilo tudo.

 

O seu mau feitio é um mito?

Não. Sou uma pessoa muito exigente e frontal. Se não fosse assim, não conseguia espectáculos de excelência, como o “Jesus Cristo Superstar”. Na vida, tudo se faz à custa de sangue suor e lágrimas. O grande poder do homem é transformar as coisas. É por isso que sou encenador. Gosto de transformar. Peguei no Politeama e no Olímpia, que eram cinemas pornográficos. E ver, depois de 14 anos, que a rua do Politeama se transformou, é um orgulho muito grande. Aquilo era uma rua de traficantes, droga e prostituição; agora está cheia de cafés, restaurantes e de luz. Foi aquele pequeno teatro que transformou aquilo tudo. “Uma pequena luz bruchuliante”, citando Jorge de Sena, transforma tudo.

 

Que relação tem com Jesus Cristo?

Sou crente, católico, mas não praticante. Cristo é um grande ícone da nossa História; mostra-nos a bondade. Depois de tanto que se sofre na terra, ainda temos a capacidade de ser bons. Mas as palavras estão muito alteradas, hoje. Vivemos num grande centro comercial das palavras. E a bondade é muito difícil de se conseguir. Como é difícil amar, compreender o outro, amar o próximo. Já passei momentos muito difíceis na minha vida e acredito piamente em Cristo. Acredito que o homem tem outro estádio mais elevado. Acredito no espírito; que a vida não é só isto. Acredito que há mais qualquer coisa. Mas sem entrar em misticismos, que não sou místico.

 

É egocêntrico?

Sou, todo o homem é. A grande mensagem de Cristo é essa luta contra o nosso egoísmo.

 

Sente-se sozinho?

Também, tudo se paga. Há sempre essa grande condenação, que é a solidão. Mas a minha é povoada, porque gosto muito de ver filmes. Todas as noites, vejo um filme. E sou viciado em leitura. Tenho sempre, nas mesinhas de cabeceira, muitos livros. Mas não tenho tempo para fazer tudo o que quero.

 

Gostava que publicassem a sua biografia?

Tenho cinco editoras a pedirem-me o mesmo e estou sempre a inventar desculpas. O Tito Lívio, crítico e escritor de teatro, está zangadíssimo comigo, porque já fizemos duas sessões e ainda faltam muitas. Mas eu acho que a minha vida não vale a pena. Tenho sempre a pretensão de que ainda tenho muito que fazer.

 

Lê o que escrevem sobre si?

Não. Não tenho paciência, nem curiosidade. Tenho 40 anos de teatro. Já aprendi a separar o trigo do joio. É tudo muito efémero. O Vítor Garcia, que foi meu mestre, dizia que o importante é continuar para a frente. O teatro tem uma coisa: vale pelo que você apresenta. Independentemente do seu grupo de apoio, só conta se chegar ao coração das pessoas. Por que esgoto espectáculos? Eu não gasto muito em publicidade, nem em marketing. Faço um marketing caseiro. São as pessoas que fazem o teatro. O único segredo dos êxitos das peças é gostar primeiro de fazer um trabalho honesto para mim próprio. Não obriguei 20 mil pessoas a vir aqui.

 


publicado por JN às 03:01

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1 comentário:
De carlos a a 11 de Agosto de 2007 às 13:49
Fiquei indeciso de ir ver Musica no Coracao,depois de ja ter visto o filme varias vezes.Ontem decidi ir com a
familia.Fiquei MARAVILHADO.Foi um espectaculo inolvidavel.So tenho que dizer PARABENS ao elenco,
aos aderecistas,musicos e em especial ao seu chefe
um SENHOR CHAMADO FILIPE LA FERIA.Espero eu que este Pais saiba agradecer ao Homem que sabe como ninguem o que e espectaculo.
Parabens e OBRIIGADO por nos dar este tipo de espectaculos.


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