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Quarta-feira, 18 de Julho de 2007

Clara Pinto Correia: "Quem tem umas massas num país falido é rei"

Helena Teixeira da Silva

Véspera de viagem para o estrangeiro . Clara Pinto Correia, 47 anos, é de poucas palavras ao telefone. Mas acede, simpática, a responder à entrevista por mail. Professora catedrática e bióloga, sempre com uma mão nos livros e outra nos jornais, passa em revista o passado recente e antecipa a reforma. Sem travão.

 

É verdade que costuma alugar uma casa de turismo de habitação, no Alentejo, só para si? O que é que faz que de outra forma não faria?

Fico sempre parva com esses mitos que se criam.  Não alugo casa nenhuma só para mim, que disparate.  Tenho dois grandes amigos, o António e a Lurdinhas, que vivem, com os filhos num turismo rural chamado Monte do Cabeço do Ouro, perto de Grândola, para onde vou (a pagantes, como qualquer outra pessoa) sempre que me apetece, e onde faço tudo o que me apetece: estar com os meus filhos em sossego, dar um mergulhinho na piscina ao fim do dia, entregar-me toda a longos passeios a cavalo em que as preocupações desaparecem ao ritmo do galope. Escrever, andar descalça... Sei que estou sempre bem quando vou para lá, e por isso, de facto, é um dos meus lugares de carregar a pilha.

 

Os resorts seduzem-na ou entediam-na?

Que horror.  Só morta é que me apanhavam num sítio desses.

 

Está mais próxima de Ally McBeal ou Carrie de “Sex and the city”?

Não vejo televisão, por isso não posso responder. Pelo que vi enquanto estava na América, não me identifico minimamente com as meninas do 'Sex and de City'. Dá vontade de dizer: "Awh, just get a life!". E estou nos antí­podas da Ally McBeal, tanto nas inclinações profissionais como a anorexia.

 

Dá a mão à palmatória com facilidade?

Com toda a naturalidade.

 

Custou-lhe a assunção do erro que a fez baralhar textos seus com os de cronistas da New Yorker?

Assumi o engano imediatamente.  O que me custou mesmo foi ver que as pessoas não queriam explicações. Queriam sangue.  Queriam julgamento sem direito a defesa e linchamento na praça pública.  Isso sim, claro que me custou.  Sobretudo pelo que os meus filhos tiveram que aguentar.

 

Do ponto de vista mediático, sente que há um antes e um depois desse episódio?

Não.  Sinto que há um antes e depois de eu ter feito a agregação e passado a ser catedrática. E um antes e um depois de eu ter feito 40 anos. Em ambos os casos, a diferença e para muito melhor.  Acontece-me com frequência as pessoas que passam por mim na rua, independentemente da idade e do género, dizerem-me que sou eu que lhes dou esperança.  É uma enorme responsabilidade, claro, mas é também um elogio muito
bonito.

 

Os 40 anos bateram-lhe “fundo na alma”. Teme nova epifania reservada aos 50?

Sei lá.  Por definição, as epifanias não são previsíveis.  Mas isto está a ser bom, e eu estou a gostar imenso.

 

 

Ficou magoada com a posição da “Visão” de suspender a sua colaboração?

Não batam mais no ceguinho.  Já passaram quase cinco anos.

 

Os portugueses estão sempre à espera de ver alguém escorregar?

Eu acho que, infelizmente, isso é uma característica da natureza humana, pelo menos no Ocidente.  Durante os dez anos em que vivi na América, descobri que toda a gente naquele país imenso gostava de ver os ídolos e depois pisá-los bem pisados.  E horrível. Mas é assim.  Olhem a indecência que estão a fazer com o Carlos Cruz, a barrar-lhe todo o acesso aos trabalhos em que ele é o melhor de todos, quando um homem que ainda não foi julgado é por lei e por simples lógica considerado inocente!

 

É mais fácil ser-se admirado quando não se está cá?

É tudo mais fácil quando vivemos num sítio onde as pessoas não nos reconhecem na rua.

 

Procura o sítio certo à hora certa para poder fazer coisas em Portugal?

Claro.  Senão, não conseguiria faze-las.

 

No “24 Horas” deixava-se fotografar com os entrevistados. Porquê?

Porque foi uma série de um ano de entrevistas minhas a portugueses de cinco estrelas que pouca gente conhece, e este trabalho foi feito num estilo muito próprio, extremamente pessoal.  Era apenas lógico que eu aparecesse numa das fotografias.

 

Chocou-a a ignorância do concurso “Belas e Mestres”?

Deixou-me doente.  Já escrevi muito sobre isso, e vou continuar a escrever.

A inteligência está a perder pontos para a beleza?

Nunca.  Se as pessoas não forem inteligentes não conseguem ser bonitas.  Isto não e negociável.

No “Kiss me” interpreta uma mulher de espírito independente, moderno, à frente do seu tempo. Identifica-se com ela?

Não.  Mas simpatizo com ela.

 

Era capaz de se apaixonar por uma mulher?

Falo com conhecimento de causa, porque já fiz a experiência que desencadeia essas coisas: não.  E agradável e sofisticado estar com mulheres, mas eu, numa semana, fiquei satisfeita para o resto da vida. Um bom homem faz imensa falta.

 

A possibilidade de hoje poder escolher-se a cor dos olhos e do cabelo, o feitio e o paladar dos bebés é perigosa ou razoável?

E de gosto duvidoso e pode abrir as portas para escolhas genéticas muitíssimo mais desagradáveis, como a pureza da raça ariana.

 

A adopção é uma moda ou uma representação de um sentido humanitário crescente?

A moda e o "sentido humanitário", neste momento, em Portugal, são exactamente a mesma coisa.  E sim, há muito quem goste de adoptar para a fotografia.

Ainda gostava de ser uma park ranger?

Isso era o meu sonho de miúda.  Agora quero, sobretudo, viver em paz e sentir-me feliz quando acordo. Mas, na reforma, claro - eu e o meu amor já estamos a tratar de tudo, incluindo a compra da casa, para acabarmos tranquilamente os nossos dias no campo, radicalmente no fim do mundo, rodeados de filhos e netos - e dos poucos amigos que sobreviveram ao teste e o serem para toda a vida.

 

Em terra de cegos quem tem um olho ainda é rei?

Em Portugal?  É mais quem tem umas massas num pais falido.

 

 

 

 


publicado por JN às 03:01

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2 comentários:
De Projecto Infertilidade a 12 de Outubro de 2009 às 22:27
Excelente entrevista, grande escritora, sem papas na língua.


(Será que me poderia enviar por e-mail o endereço de correio electrónico da Clara Pinto Correia para uma posterior entrevista em relação à infertilidade? Estou neste momento a desenvolver um trabalho em Área de Projecto sobre o tema e era óptimo conseguir a colaboração de tão notável figura. Obrigada, aguardo resposta).


De miriam a 8 de Fevereiro de 2011 às 18:19
gostaria que me podasse fornecer informação relativas ao contacto da jornalista pois estou a fazer um trabalho sobre ela.

Obrigado


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