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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Isabel Jonet: "Sócrates luta bem, só não sei se luta pela causa certa"

 

 

De cada vez que a questionam sobre a sua música preferida, ela responde sempre com a mesma: “Wonderful world”, de Louis Amstrong. Justamente porque acredita que, apesar de tudo, o mundo é maravilhoso. E quando não é, ele tenta que seja. Isabel Jonet é presidente do Banco Alimentar Contra a Fome há seis anos – caso de ímpar sucesso.

Abdicaria da noite de Natal para jantar com os sem-abrigo?

Não. Porque acho que o natal é um dia muito, muito importante para todos nós e para os sem-abrigo não existe apenas a noite de natal. Existem 365 dias por ano. E há tantas pessoas que se lembram dos sem-abrigo nesse dia, que eu prefiro lembrar-me deles todos os outros dias e dedicar a noite de natal á minha família.

 

Antes de presidir o Banco Alimentar já era sensível a este tipo de causas e já colaborava?

Sim. Faço voluntariado desde os 12 anos. Comecei a entreter crianças recém operadas no hospital ortopédico de Santana, na Parede, durante as férias de Verão, porque eram muito longas, duravam três meses, e os meus pais achavam que era de mais para estarmos sem fazer nada. Com um grupo de amigos, ajudávamos a alimentar crianças nesse hospital. Desde aí, nunca mais deixei de fazer voluntariado porque quando de entranha, percebe-se que se ganha muito mais do que se dá. Portanto, sempre ao longo da minha vida fui visitando doentes nos hospitais, reclusos nas prisões, ou até fazendo voluntariado mais próximo com as pessoas da minha família. Muitas vezes achamos que o voluntariado é só para fora e o voluntariado mais difícil de fazer é aquele que temos que fazer dentro de casa com os nosso próprios familiares, nomeadamente com os mais velhos que tantas vezes abandonamos, empenhando-nos noutras causas que, se calhar, estão mais na moda, mas que têm menos utilidade social.

 

A sua consciência fica de alguma forma mais apaziguada por estar associada a este tipo de trabalho?

O que me faz ser voluntária não tem a ver com apaziguamento de consciência. Para mim, este tipo de vida que eu tenho hoje em dia, esta opção que eu fiz é uma missão. E é uma missão todos os dias realizada pelos resultados obtidos. Não tem tanto a ver com apaziguamento de consciência, até porque não sinto necessidades desse tipo. Agora, com grande gratificação pessoal, sim.

 

A sua experiência diz-lhe que há solidariedade com dia e hora marcada?

Há muitas pessoas que fazem solidariedade com hora e dia marcado. O que também não é pior porque se só têm essa hora e esse dia para fazer solidariedade, mas fazem-no nessa hora e nesse dia, significa que de alguma forma se deixaram tocar pelo espírito da solidariedade e sentiram esse apelo. E se esse dia e hora forem aproveitados de forma correcta, eles repetem-se.

 

Dá consigo a contabilizar quantas refeições daria, por exemplo, cada par de sapatos de compra?

Inevitavelmente. Quando se lida com uma realidade tão dura e crua como esta que eu lido diariamente, até porque eu continuei a ir visitar famílias muito carenciadas, inevitavelmente quase tudo se converte em pacotes de leite.

 

O que faz com o que desperdiça em casa?

Desperdiço muito pouco porque quando se abraça um projecto deste tipo todas as nossas escolhas e motivações pessoais ficam orientadas de uma outra maneira. Os meus filhos – e tenho cinco – gozam comigo e dizem: a mãe é a maior amiga do ozono. Porque eu vivo de facto a tentar lutar contra o desperdício nas mais pequenas coisas, desde a luz que se deixa apagada, ao computador, tudo o que há em minha casa se recicla. Os homens do lixo conhecem-me, dizem é a senhora que recicla mais da rua. Tenho de facto uma grande luta contra o desperdício. E isto porquê? Porque eu tenho dentro de mim que os bens a nível global são escassos. E que a pobreza que se vive hoje em dia muitas vezes decorre de uma má distribuição e de um desperdício de bens que já de si são escassos. E eu tenho a certeza que se continuarmos a este ritmo, a desperdiçar bens e pessoas também – que é um dos grandes desperdícios hoje em dia é o de recursos humanos – exaurimos o planeta. E toda esta minha postura de reciclar e de recuperar é até um investimento a longo prazo. Eu estou a recuperar bens para os meus netos poderem ter alguma coisa para eles.

 

Aceitaria jantar em casa de uma família carenciada?

Com imenso gosto. Se calhar oferecia-me para levar o jantar. Ou pelo menos a sobremesa, mas teria um enorme gosto em partilhar a refeição. Tenho-o feito, aliás. E sobretudo em partilhar uma refeição que eles tivessem feiro de propósito para mim. Porque esse tipo de gestos de gratidão, são actos de amor. E hoje em dia nós deixamos de ter tempo para aceitar actos de reconhecimento e de amor e isso cria obviamente mais individualismo.

 

O primeiro Banco Alimentar nasceu nos EUA em 1966. Chegou à Europa em 1984 e a Portugal só em 1992. Diria que, até na solidariedade, Portugal está no fim da lista?

Não está. O Banco de Lisboa é o maior da Europa e um dos maiores do mundo. Tudo isto é uma questão de eficiência na gestão. E o BA de Lisboa tem sido prova disso, o do Porto é o segundo maior da Europa. E que apoia muitas pessoas carenciadas. Este modelo é eficiente. Sobretudo, recorre ao trabalho voluntário. Os portugueses são extraordinariamente solidários. Só que gostam de conhecer os projectos para os quais estão a contribuir e gostam de se identificar com eles. As pessoas estão fartas de ser enganadas. E o banco Alimentar merece a confiança dos portugueses, que são muito generosos. Basta ver as quantidades recolhidas nas campanhas, precisamente porque confiam nesta instituição.

 

Mais do que um banco alimentar contra a fome, acha que o país precisa de um banco de valores?

Concordo inteiramente. Escasseiam hoje em dia valores e códigos de ética. E aliás nesse sentido, o banco alimentar tem um projecto nas escolas que se chama “Educar para a cidadania” que o que faz é precisamente é levar valores universais como a verdade, a justiça, a partilha, a tolerância, a concórdia, a miúdos que serão os futuros empresários e políticos deste país. Há uma grande crise de valores que se reflecte em todas as relações humanas e em muitas das decisões políticas.

 

Algum dos 12 candidatos às eleições autárquicas de Lisboa passou por aqui?

Posso dizer-lhe que vários tentaram, mas a direcção do Banco Alimentar nunca se mostrou disponível para receber nenhum político até hoje.

 

É uma opção de sempre?

É uma opção porque o Banco Alimentar contra a Fome é independente do estado, da Igreja, de todos os partidos políticos e nós temos imenso gosto em receber todas as pessoas, cidadãos de boa vontade que nos queiram visitar, mas não temos nenhuma disponibilidade para receber qualquer político com a imprensa toda atrás. Para usar a imagem do Banco Alimentar em proveito próprio.

 

Há hoje heróis em Portugal?

São todas as pessoas anónimas que contribuem para os bancos alimentares ou para causas com as quais se identificam, não têm que ser de solidariedade social. Os heróis em Portugal são todos os cidadãos que de forma anónima e desinteressada se dão a outros todos os dias. São milhares de pessoas. Mas não estão nos jornais nem nas revistas.

 

Há quem defenda que os homens são do tamanho das causas que defendem. De que tamanho é para si José Sócrates?

Nessa acepção deve ser um grande homem porque eu acho que o nosso primeiro-ministro luta por uma causa com a qual se identifica e luta bem. Não sei é se é uma boa causa.

 

Ajudar hoje é socialmente correcto, um gesto que fica bem?

Ajudar hoje é social e até politicamente correcto.

 

Apanhou-a desprevenida a reportagem do Expresso, na qual foi dito que as carrinhas de distribuição alimentar se atropelam umas às outras em Lisboa?

Aquilo que se passa é que no caso da ajuda que é prestada aos sem-abrigo, que é à noite, há muitos voluntários que só têm essa disponibilidade porque durante o dia trabalham. Essa é uma realidade que eu conheço bem e que tento combater fazendo com que as instituições se coordenem entre si e estabeleçam redes sociais. Mas o que se passa é que muitas vezes as instituições só têm disponibilidade à noite e portanto preferem ir vários com este afã de ajudar. É pena não se articularem entre si porque, uma vez mais, podiam combater o desperdício de recursos.

 

Incomoda-a quando as pessoas são capazes de doar coisas a vítimas de catástrofes mundiais, porventura mediáticas, e incapazes de ajudar o vizinho do lado?

Tem razão. Muitas vezes é mais fácil dar quando está fora de nós. É até mais fácil dar quando está a quilómetros de distância. Há muitas pessoas que preferem pagar para não ver.

 

Há um autarca em Portugal que defende que enquanto houver um pobre na cidade, não haverá investimento maior na cultura. Concorda com esta política?

Não. Eu acho que a pobreza é uma realidade. Que pode e deve ser combatida pelas autarquias e pelo Estado, com o apoio da sociedade civil porque a sociedade civil tem mais calor humano e mais proximidade afectiva para ajudar cada um dos pobres. No entanto, nós não podemos deixar que a pobreza e o combate à pobreza absorva todos os recursos porque a vida é boa. Muitas vezes perguntam-me qual é a minha canção preferida e eu tenho sempre uma: ‘Wonderful world’ do Louis Amstrong. O nosso mundo é maravilhoso e não nos podemos só deixar exprimir com aquilo que é mau. A pobreza é uma coisa má, que nós temos que combater e puxar para cima. Desporto, lazer, cultura, artes são fundamentais para puxar para cima. Os pobres não são miseráveis. São pessoas que num determinado momento não têm acesso a todos os bens. Nós temos que proporcionar condições para que tenham esses bens, promover o emprego e a formação para que possam ser autónomos e saiam desse ciclo, mas devemos proporcionar também coisas bonitas.

 

Em 2001, os bens alimentares recolhidos pelo Banco diminuíram. Entre 2005 e 2006 aumentaram só levemente. É um reflexo da crise que o país vive?

Eu acho que os portugueses são muito generosos e o Banco Alimentar é uma ideia com a qual é fácil colaborar, porque não é preciso muito – é preciso muitos. As pessoas podem dar pouco, mas se forem muitas pessoas a dar, nas campanhas multiplica o volume de dádivas. E é exactamente esse o sucesso do Banco Alimentar, que existe um efeito multiplicador de tudo o que é oferecido, tanto em termos de produtos como de trabalho. São muitos a lutar pela mesma causa, todos devidamente organizados. Os BA vivem a sua mais percentagem de dádiva da indústria agro-alimentar. Quando os anos agrícolas são bons há maior retirada de fruta. E é por isso que não cresceu tanto de 2005 para 2006. Porque em 2006 foi um ano em que houve muito pouca fruta. Se não há fruta, não há grandes retiradas de fruta. Por exemplo, no primeiro trimestre de 2007, nós distribuímos mais de 900 toneladas de pêra rocha. O volume das entradas nos bancos alimentares é muito influenciado pelas condições da agricultura e pelos excedentes da indústria.

 

Como reage às críticas de que as doações não chegam ao seu destino ou ficam a estragar-se nos armazéns?

Reajo pessimamente, porque se as pessoas tiverem razão, é um crime. Por duas razões: primeiro porque é um desperdício de recursos e de doações que não chegaram ao seu destino; e depois porque é um desperdício de uma oportunidade perdida. Ou seja, houve pessoas que se empenharam e que viram coisas mal encaminhadas. No caso dos bancos alimentares, de qualquer forma, isso não existe. Até pelas características do funcionamento. Cada banco alimentar contra a fome – e existem 13 actualmente - recolhe na zona onde está inserido. Existe uma grande proximidade entre quem dá e quem recebe. Não há trajectos. No caso das instituições que distribuem alimentos para África ou Kosovo ou Timor, isso é mais difícil porque há uma viagem pelo meio e perde-se o controlo da entidade que vai distribuir. No caso dos bancos alimentares, há instituições que são escolhidas e acompanhadas por nós e a cadeia da distribuição é controlada por nós. Se não cumpre, é excluída.

 

Nunca pensa em termos políticos neste processo?

Este é um projecto de pessoas para pessoas. E portanto escapa a todas essas considerações e vertentes. E é independentemente disso tudo e só por isso pode funcionar como funciona. Não há ninguém a tirar partido do banco alimentar contra a fome, nem da imagem obtida pelo banco porque as pessoas reconhecem este projecto como um projecto que é de todas as pessoas e que manifestamente se manteve independente de qualquer partido, de qualquer poder político e de qualquer outro movimento ideológico ou religioso.

 

Desilude-se cada vez mais ou ilude-se cada vez menos?

Eu nunca me desiludo. Eu tenho uma resiliência grande e portanto se me desiludo, volto ao de cima. Iludir-me é que nunca. Sou muito realista e olho para as coisas como elas são. Se não são boas eu digo que não são boas e tento mudá-las. Agora, acho que as pessoas deixarem iludir-se, não. Acho que é preferível desiludirmo-nos para tentarmos mudar alguma coisa. Iludirmo-nos é termos uma falta apreensão de uma realidade que não queremos ver. Eu gosto sempre de ver as coisas como elas são para tentar mudar o que acho que não está bem.

 

 


publicado por JN às 03:16

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1 comentário:
De livros2amao a 27 de Fevereiro de 2008 às 22:43
Pois é, mais pessoas assim poderiam mudar o mundo! No entanto, este não deixa de ser um belo projecto já em acção e com imensos anónimos empenhados.


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