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Domingo, 2 de Dezembro de 2007

Luísa Mesquita: "Durão Barroso nunca poderia ser Nobel da Paz tendo feito a guerra"

 

Aderiu ao PCP em 1974 e ocupou ininterruptamente lugares políticos desde 1985 até à semana passada, quando foi expulsa do partido.  Luísa Mesquita, 55 anos, afirma, no entanto, que a sua realização advém da sua carreira como professora e da sua intervenção cívica, de que nunca abdicou, nem abdicará.

Durão Barroso justificou o seu apoio à guerra no Iraque com a falta de verdade contida na informação que terá lido. Acredita nele?

Sou contra a guerra do Iraque e contra todos os que alimentaram um processo politicamente suscitado pela mentira. Levou à destruição de um país, à morte e ao sofrimento de tantos homens, mulheres e crianças, que não foram ouvidos, e que sofreram na pele aquilo que meia dúzia de pessoas decidiu fazer.

 

Não considera então credível o seu acto de contrição?

De todo. Quando um homem tem responsabilidades na vida política, não pode tomar decisões de ânimo leve.  Sobretudo, quando essas decisões são tomadas numa troika que inclui um homem chamado Bush. Bastava isso para que todos aqueles que alinharam tivessem sido mais cuidadosos e tivessem tomado medidas sustentadas pela verdade e não pela mentira de quem queria a todo o custo resolver problemas de natureza mais económica do que política.

 

Mas José Ramos Horta já afirmou a intenção de o nomear para prémio Nobel da Paz em 2008. Parece-lhe justo?

Discordo totalmente. Não posso entender que se proponha para Nobel da Paz um homem que foi um dos elementos responsáveis pela guerra do Iraque.

 

Qual seria a sua sugestão?

É matéria sobre a qual é preciso reflectir e pensar. Mas haverá homens e mulheres no mundo dignos e dos quais nunca ouvimos falar.

 

Cada um tem os heróis que escolhe ou os que merece?

Eu sou muito ‘garrettiana’. Dir-lhe-ia que temos o país que merecemos, temos as dificuldades e as facilidades que merecemos, o mundo que merecemos. Nesta leitura que tenho da vida, naturalmente, entendo que uns merecem menos e outros merecem mais. Se eu luto todos os dias para que a vida do meu país, a vida da minha casa e da minha família seja melhor, então eu não merecia isto. Mas se em conjunto o país e o mundo não lutam suficientemente para ter um mundo melhor, mais justo e solidário, este mundo merece o mundo que tem. O livro “Viagens na minha terra” faz uma apreciação extremamente elegante e verdadeira daquilo que todos nós merecemos. Por muito empenho que eu tenha, eu sozinha não mudo o mundo. Apetece-me citar Saramago, que o diz com muita clareza: “Não há nenhum vontade única verdadeira e não há nenhuma verdade única e verdadeira. O mundo é composto de diversas vontades, verdades”. E é esse acumular de vontades e verdades que tem que ser cada vez mais justas e amplas para ser possível mudar o mundo.

 

Que tipo de professora foi: temida ou idolatrada?

Fui confrontada agora com uma notícia que me emocionou. Um colega seu, da Rádio Comercial,  terá iniciado o seu programa enviando um beijo para a ex-professora Luísa Mesquita e dedicou-lhe uma canção. Talvez esse colega, e outros, possam falar da professora. A noção que tenho de mim própria é a de que sou exigente. Sobretudo no relacionamento humano e no entendimento.

 

Nas aulas, o que mais a inquietava nesses alunos?

Aquilo que mais me incomodava era alguma apatia. Lembro-me que fundamentalmente nas áreas de Literatura e Cultura Portuguesa, nunca em momento nenhum impus opiniões, embora as Ciências Sociais vivam muito de interpretações. Sempre sustentei as minhas aulas com opiniões contraditórias. Leituras apostas e dicotómicas para os mesmos textos. Muitas vezes entendi que isto era uma estratégia suficientemente pesada e provocatória para que reagissem, e quando não acontecia ficava triste. Gostava de aulas dinâmicas, discutidas em que todos tivessem a sua opinião.

 

 

Pedro Moutinho, líder da Juventude Centrista, apontou  Bernardino Soares, presidente do Grupo Parlamentar do PCP, como um dos protagonistas dos distúrbios revolucionários do Verão Quente de 1975, altura em que tinha apenas quatro anos. O que diz isto da nova geração política?

Como? Não sabia. Mas vejo isso como um erro. Relativamente às juventudes, eu acredito imenso nelas. Acredito que os jovens dos dias de hoje vão ser capazes de corrigir muitos erros que as gerações anteriores cometeram e encontrar melhores soluções. Não tenho uma leitura negativa, nem pessimista semelhante à daqueles que consideram que só a sua geração foi digna de relevo e mérito. Tenho três filhos e tenho muito orgulho na postura deles como cidadãos. E acredito muito na sua capacidade de mudar o mundo.

 

Algum é militante do PCP?

Nenhum deles.

 

E a sua militância obrigou-a a engolir muitos sapos?

Nunca. Tenho uma característica, que não sei se é boa ou má, mas é minha. Tenho amigos - e tinha camaradas que hoje não o são porque fui expulsa do partido -, que me dizem que não percebem como é que a direcção do PCP alguma vez pode pensar que eu iria aceitar uma decisão contra a minha natureza. É preciso não me conhecerem. Isto significa que nunca fui uma pessoa disponível para engolir sapos, nem mentiras. Nem nunca fui uma pessoa com medo de enfrentar todas as adversidades, mesmo quando elas são sustentadas pela mentira permanente. Em toda a minha vida partidária sempre disse no PCP aquilo que considerava justo dizer. E nunca senti que isso tivesse sido, de algum modo, uma arma de arremesso relativamente a todas as direcções políticas, com excepção desta, que não gosta de ter militantes com a sua própria opinião e forma de ser e de estar na vida.

Não ter aceite deixar o seu lugar na bancada parlamentar do PCP foi o seu grito de Ipiranga ou um tiro no pé?

Nem um grito de Ipiranga, nem um tiro no pé. Foi o resultado de um comportamento que é basilar na minha vida, que é o respeito pelos outros. Quando não respeitamos os outros com quem assumimos compromissos, a intervenção de cidadania não tem nenhum interesse. Aquilo que eu fiz há um ano, dizendo-o em primeiro lugar ao PCP, é que não estava disponível para que no distrito e no concelho me dissessem que eu era uma troca-tintas, e que tinha assumido um compromisso para estar quatro anos no Parlamento e quatro anos na Assembleia da República e que, afinal, depois de uma divisão administrativa e unilateral do PCP, sem nenhuma justificação, eu deixava o Parlamento por medo daquilo que seriam as represálias do PCP - que estão aí. Porque a minha seriedade não era tão sustentada como isso e me seria perfeitamente indiferente dizer uma coisa em campanha eleitoral e depois na prática fazer outra. Ora, como não sei estar assim na vida, como não tenho medo, e como não estou disponível para não cumprir aquilo que devo, aquilo que fiz foi informar o PCP de que poderia usar todos os instrumentos à sua disposição e até, como se tem visto, a falsidade, a mentira e todos os instrumentos de pressão psicológica, porque eu não largaria os dois mandatos para que fui eleita em 2005.

 

Sente que as regras do jogo mudaram ou não lhes prestou devida atenção?

Não houve regras nenhumas que tivessem mudado. Quero dizer-lhe que não sou uma militante que não conheça os estatutos; não sou uma militante que não conheça aquilo que são os pressupostos de trabalho do PCP. A questão não se põe a esse nível. Se há aqui alguma distracção da minha parte ela deve-se mais exclusivamente ao facto de que ainda não tinha avaliado que esta direcção do PCP não tem princípios e que todos os instrumentos lhe servem para atingir os seus objectivos. Desde a mentira, à ausência de dignidade, à ausência de seriedade. Fiz disso uma leitura similar através dos vários contactos políticos que me foram feitos desde a década de 80 [deputada entre 83 e 85].  Depois, por decisão minha, saí do Parlamento, embora o PCP me tivesse convidado mais uma vez em 85 para ser deputada. Em 87 convidou-me novamente e integrei as listas, mas coloquei como condição que seria em lugar não elegível. Em 95 fui mais uma vez convidada e disponibilizei-me em detrimento da minha vida profissional a estar mais quatro anos no Parlamento. Em 99, foi-me colocada novamente a questão e disponibilizei-me para mais quatro anos. Em 2002, a Assembleia foi dissolvida e voltei a ser convidada e aceitei. Em 2005, aceitei mais quatro anos. Portanto, há aqui um erro de avaliação que passa por eu pensar que estava perante uma direcção política similar a todas as outras que me convidaram e contactaram e com quem acordei todas as questões para ficar no parlamento. Enganei-me. Jerónimo de Sousa tem todo um comportamento indigno e mentiroso.

 

Qual é a diferença entre o significado do verbo "trair" genericamente assumido pela maioria e pelo PCP?

Não sei qual é o entendimento que o PCP tem, mas penso que o PCP, como vive em Portugal, e o nosso discurso linguístico é sustentado pela língua portuguesa, tem que ter o mesmo entendimento que toda a gente tem. E se não tem, é mau. Significa que o PCP, ou a sua direcção política, considera que há as leis da República, a Constituição Portuguesa e que, acima de tudo isso, há as leis do PCP. E isso é de uma arrogância e de uma prepotência de um regime democrático. O PCP fez-me acreditar que tinha comigo um acordo sério quando me pediu quatro anos, e quando conseguiu que a eleição se concretizasse, e agora, afinal, percebo que fui só uma angariadora de votos. O PCP transformou-me em angariadora de votos. Colocou uma pessoa em cabeça de lista que não queria como deputada? Isto chama-se mentir ao eleitorado. Escandalosamente.

 

Costuma dizer-se que os portugueses gostam de disciplina, de rédea curta, de ter alguém a mandar neles e que só isso justificará o facto de Salazar ter ganho o concurso da RTP "Os grandes portugueses". Acha que é esse desejo de obediência que define os comunistas?

Não faço a mínima ideia e duvido que haja traços característicos de muitas e muitas pessoas. Cada pessoa é um ser humano, e eu sou-o independentemente do meu posicionamento político, daquilo que são os meus princípios, os meus valores, as minhas causas. Sou uma cidadã livre e tenho direitos num regime democrático, até porque vivi em pleno fascismo, e lembro-me bem como era. Tenho direito de dizer exactamente o que penso sobre cada situação. E também, de qualquer modo, tenho contenção naquilo que digo. Não fui eu que comecei este processo, nem fui eu que me servi da Comunicação Social para dizer do PCP aquilo que o PCP disse a meu respeito. Só reponho a verdade e desminto categoricamente a direcção do PCP e Jerónimo de Sousa. O PCP tem feito o que acusa os outros de fazerem: espectáculo e show-of político.

 

Zita Seabra, depois de ter sido, também, expulsa do PCP, disse que o partido lhe roubou a adolescência. E a si?

Nada. A minha postura como militante do PCP nunca silenciou a minha vida de mulher, de cidadã, de professora. Sempre disse aquilo que pensava. Eu não fui militante clandestina; aderi ao PCP em Maio de 1974 por vontade própria. Nunca em momento nenhum a minha vontade foi subjugada pela vontade do PCP; foi subjugada pela opinião do PCP. A partir de Junho de 2006 deixei de estar disponível para trabalhar para o PCP e o PCP para me ter.

 

Zita Seabra é hoje deputada pelo PSD. Também seria capaz de percorrer esse caminho todo até à direita ou é uma monogâmica política?

O meu processo não tem nada que ver com processos que têm vindo a público nas últimas duas décadas. É um caso perfeitamente isolado, sozinho, que tem que ver com o facto de não estar disponível para não cumprir compromissos que assumi, quer em relação ao PCP, quer em relação a quem me elegeu. O futuro não é objecto da minha preocupação, nem de reflexão. A minha carreira é profissional não é política. O que eu gosto de fazer é leccionar, desde Literatura Portuguesa à Cultura Portuguesa Contemporânea. Foi aí que me realizei. Ser política não nenhuma realização: ser política é estar disponível em determinados momentos para dar o meu empenho e o meu esforço.

 

É possível mudar o mundo quando não se consegue mudar um partido?

Claro que é. Não podemos confundir as duas coisas. Os partidos políticos são indispensáveis na construção da democracia, mas pensar que um partido político pode mudar o mundo, isso é perfeitamente impossível. Quem muda o mundo são os seres humanos. Se houver uma consciência cada vez mais ampla, mais alargada de que o mundo em que nós vivemos é injusto, que a riqueza é adquirida por um conjunto cada vez menor de pessoas, que há crianças que morrem todos os dias com fome, que a riqueza do planeta dava para distribuir por todos aqueles que aqui vivem, que temos que salvaguardar ambientalmente o planeta em que vivemos, esta consciência alargada de todos os homens e mulheres que vivem em Portugal, na China ou nos EUA. A política de cidadania é a única capaz de mudar o mundo. Os partidos poderão ajudar se estiverem disponíveis para alargar essa consciência.

 

Mas vale a pena acreditar em ideais quando não há capacidade de os aplicar sem uma postura dogmática?

Eu não acredito em dogmas políticos, nem religiosos, nem futebolísticos. Portanto, considero que a obrigação de qualquer ser humano é a sua intervenção na cidadania permanente. Fui deputada sem interrupção desde 1985, mas a minha profissão não é ser política. Tenho uma profissão, que é ser docente. Antes de ser militante do PCP, tenho a minha própria vida de cidadã. E nunca foi a de uma vida vã sem intervenção: quando não foi na Assembleia da República, foi com os meus milhares de alunos, não de ensinar, mas de conversar e aprender com eles. Um cidadão tem intervenção na sua postura diária. Ter a capacidade de enfrentar as decisões, apelando à justiça, mesmo que o caminho mais fácil seja o da cedência.

 

Mas concordará que a militância comunista passará por uma quase anulação individual em prol de um colectivo?

Tem razão e não tem. No meu caso, não passou nunca. Quando a direcção política do PCP tentou anular a minha capacidade de reflectir, de pensar, de intervenção como cidadã e tentou espezinhar os acordos que comigo assumiu, tive que fazer uma coisa: dizer que comigo não, isso nunca será feito. E é por isso que tive que esperar tranquila e serena que o processo fizesse o processo de expulsão. Mas isso é a consequência de quem não está disponível neste mundo para andar de cabeça baixa.

 

E em milagres, acredita?

Acredito nos milagres que resultam do empenhamento e do trabalho.

 

Alguma vez foi ao santuário de Fátima?

Com certeza. Como fui à Catedral de Reims, à Igreja de Notre Dame, às catedrais ortodoxas na Rússia e a muitos outros espaços religiosos no mundo inteiro.

 

É frequentadora assídua das touradas que se fazem em Santarém?

Pessoalmente, lembro-me que na infância fui algumas vezes espectadora de touradas. Era muito natural e acontecia com frequência, acompanhada pelos meus pais. Naturalmente, não é o espectáculo preferido na minha vida. Prefiro música e cinema

 

O que aprecia mais em Francisco Moita Flores: o autarca, o realizador ou o escritor?

Como escritor, considero-o fascinante o seu último livro, baseado na Ferreirinha. A “Fúria das vinhas”, tem um contexto ficcional e histórico como na produção romanesca. Gostei muito do livro e é por isso que Saramago é dos meus escritores preferidos. Porque tem também um contexto histórico e ficcional que se cruzam, e que vão em crescendo até ao fim. Tem momentos de política interessantíssimos. Gosto muito do Flores como escritor, mas conheço-o como pessoa no seu dia-a-dia. E o lado que mais me fascina nele é o seu relacionamento humano.


publicado por JN às 04:19

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